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Era Deus, agora é a Tecnologia
Eu desejaria poder ter mais escolhas. Não entendo porque o ser
humano evolui, evolui, e não pode ampliar seu leque de possibilidades.
Um
exemplo: antigamente, as famílias tinham que ter quantos filhos Deus mandasse.
Era obrigatório. O sexo estava completamente ligado à reprodução
humana.
Daí, surgiram os métodos anticoncepcionais. OBA!! Todos podem
viver sua sexualidade como bem entenderem! Estamos mais livres!
E, o que
aconteceu em seguida? As escolhas de ontem ficaram definitivamente canceladas.
Uma mulher que hoje desejar ter "quantos filhos Deus mandar" será uma louca
irresponsável. A mulher que não escolhe trabalhar fora para poder ficar mais
tempo com os filhos é uma acomodada. E assim, se antes não tínhamos escolha
quanto ao modo de viver nossas vidas, hoje também não temos. Continuamos sendo
coagidos e forçados, mas desta vez por um determinismo social.
Outro
exemplo: o parto existe, desde que o mundo existe. Daí, a medicina resolve
estudar e auxiliar o parto das mulheres. OBA! Que alegria! Mulheres que antes
não podiam naturalmente ter filhos, vêem surgir uma nova esperança. Mulheres que
teriam problemas graves no seu parto têm a possibilidade de uma cesárea
necessária...
Mas o que vem em seguida? De novo, o que era uma
alternativa de liberdade vai aos poucos se tornando a última regra possível: se
a mulher quer ter seu filho em casa, é maluca. Chamada de "corajosa" naquele tom
pejorativo que nós tão bem conhecemos.
E uma unanimidade mundial diz que
as tecnologias todas assumiram o lugar que antes era ocupado por Deus na nossa
cultura, (com as vantagens e desvantagens que tinha antes). Hoje, continua sendo
um pecado mortal "comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, que
te torna igual a Deus..." Por exemplo, como nós, "apenas mulheres", (rs)
queremos questionar a real necessidade da episiotomia, da posição vertical, da
ocitocina??...
Somos agora novas Evas, pecadoras que levamos nossos
homens a pecar conosco. Rapidamente, somos expulsas do paraíso da segurança e
docilidade, e assumimos os riscos de uma vida de verdade, dinâmica, que vale a
pena ser vivida.
Imagino minha filha, daqui a 20 anos, tentando conceber
o filho de maneira natural através do sexo. Imagino que ela também será uma
louca, e os argumentos serão os mesmos de hoje: Para que arriscar? Se temos
tecnologias, por quê não usá-las? Você pode pegar um espermatozóide perfeito,
com um óvulo perfeito, e estará "livrando" seu filho da síndrome de Down e de
outras doenças genéticas e cromossômicas. É muito mais seguro!!! Não é o modo de
concepção que faz a mãe... Ninguém é menos mãe porque não concebeu seu filho
através do sexo...
E, mais adiante, quando minha neta fizer o filho no
laboratório, talvez teime em gestá-lo, e aí ouvirá: "O que? Manter o seu filho 9
meses na barriga? Para que arriscar? Se temos tecnologias, por quê não
usá-las?
Imagine se você pegar rubéola nos três primeiros meses de gravidez!
Seu filho terá sérios problemas, é isso que você quer com sua teimosia
irresponsável? A máquina de gestação de bebês é muito mais segura, livre de
contaminação e bactérias... Não é levar na barriga que faz alguém mais mãe ou
menos mãe. E então, algum dia, como no Admirável Mundo Novo, nós já seremos
completamente dispensáveis...
Sei que não é a concepção que faz uma mãe.
Sei que não é o tipo de parto, ou o tempo de barriga. Mas sei que isso é uma
totalidade, que, salvo em ocasiões especiais, deve ser mantida íntegra. Para que
o mundo não se esqueça de como é naturalmente. Para que a tecnologia não nos
torne obsoletas, e o mundo não se esqueça dos seres humanos que todos somos.
Para que nós mesmas tenhamos preservada nossa identidade de mães e
mulheres.
E que ironia, tudo o que eu queria, e quero desde o começo, é
poder ter mais possibilidades de escolha, entendendo, numa consciência crítica e
cidadã, que nada pode ser autoritariamente considerado melhor pelo único e
simples fato de ser mais atual.
Thais Stella Teixeira de
Araujo
Professora